"Eu considero Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo"
- Padre Mário Di Maria - (12/07/1974 - entrevista ao Jornal Diário do Paraná)

1 de outubro de 2011

Rafael Lopes da Silva - sua contribuição a serviço da arte.

“Guaraqueçaba e o artista”

Escreve: Salim Jorge Chede (IN: Guia Informativo e Turístico de Paranaguá).

Guaraqueçaba em 1933 – pintura de Rafael Lopes da Silva
Original: Maria Ione Barbosa (Guaraqueçaba).

        Lá ao longe, às margens do litoral paranaense, elevam-se as terras florescentes de Guaraqueçaba, outrora de próspero comércio. Naquele recanto da marinha, ao marulho das águas do oceano, vinha ao mundo no dia 24 de outubro do ano de 1905, um menino predestinado às artes: Rafael Silva.
        A vida de nosso homem da faixa litorânea embora traz consigo o grande amor à hospitalidade. F. é comum em qualquer choupana do nosso caboclo, por minguado que seja o pirão de farinha para os forasteiros que o visita.
        Passou sua infânica, em Guaraqueçaba, ao lado da gurizada amiga e despretensiosa. A natureza que adorna Guaraqueçaba é como um descortinar de belezas. Sua paisagem deslumbra o visitante e dá a impressão de que as pequenas elevações de terra inclinam-se como a querer beijar o mar, ou serem por êle beijadas.
        O arista-mirim nos seus folguedos na areia branca que avançam para a água, ficava horas em muda comtemplação, embevecido, pela maravilha do cenário, para logo reproduzir em traços, na areia, com a ajuda de galhos de araçazeiro, como se fôssem lápis, esboçando os seus primeiros ensaios.
        Contam que, certo dia estando a lançar a linha de pesca, presenciara um desses quadros dantescos, em que a natureza em fúria arrastava, levava consigo tudo quanto encontrava pela frente, fazendo estalar as verdes galharias plantadas no mangue, e do espaço afugentar as aves marinhas que em bandos, assustadas, buscavam abrigo. Despertou-lhe êste espetáculo, violenta emoção. O mocinho simples, de olhos arregalados, apressadamente foi-se para casa, ladeados de lindas jussaras e lá numa mesa, transportou para o papel o que assistira. A reprodução saira esplêndida.
        A sua vida aos poucos transformava-se. O despertador de seu amor pelas artes, deu-lhe impulso às aventuras. O ambiente em que vivia era demasiadamente acanhado para quem se achava possuido de enorme ansiedade de dar vasão aos impulsos artísticos. Algo de estranho prendia-o às terras de Guaraqueçaba, talvez os seus violeiros entoando cantigas em noites môrnas de luar, a convidar tôda gente da redondeza para o fandango.
        Rafael Silva, num breve espaço de tempo, tornara-se homem experiente e conhecedor dos intrincados problemas humanos.
        Instala um ateliê afim de garantir sua subsistência. Trabalhava sem descanso, em desenhos de propaganda comercial, até altas horas da noite, e durante o dia, ornamentando também com seu pincel o interior de luxuosas residências.
        Passam-se os anos. Atingida a idade do sorteio militar, com ela aumentava a ansiedade de se transportar para um centro ainda maior e de mais recursos artísticos. Surge, então a oportunidade almejada com a ida à Curitiba, onde prestaria o tempo de serviço nas fileiras do exército. Neste período, manifestou-se, acentuadamente, o seu gosto pelas côres.

Rua do Porto em Paranaguá (Palacete Mathias Bohn).
Acervo: Macaxeira (em formato postal).

        Levou à tela, em seu rpimeiro trabalho, o velho Colégio dos Jesuítas de Paranaguá, considerado pelos críticos de arte da época, como sendo uma obra magnífica. Foi adquirida pelo senhor Zenon leite.
        Diante do sucesso alcançado, a Prefeitura de Paranaguá, na pessoa do inesquecível prefeito Dídio Costa, resolveu subvencionar-lhe os estudos com o grande mestre Alfredo Andersen em 1930.
        Deflagrada a revolução nesse ano, não pôde prosseguir os seus estudos, tendo apenas assistida a dez aulas. Não se deixou acabrunhar, continuando nos seus intentos. A natureza do meio foi a sua grande inspiradora; produziu telas retratando paisagens marinhas.
        Na Inglaterra organizou-se um concurso de pintura sobre a Frnaça Livre. Concorreria à exposição com o retrato do General De Gaulle. Não logrou o objetivo porque o quadro fora desclassificado em virtude de conter a assinatura do pintor, o que era proibido. Mais tarde foi adquirido pela Embaixada Francesa no Brasil.
        Os seus quadros proporcionaram-lhe o ingresso na Sociedade Brasileira de Belas Artes e acham-se hoje espalhados por várias localidades do país.
        Lamentavelmente, Rafael Silva, que por várias vezes fora convidado a dirigir um grande atelier no Rio de Janeiro, só de quando em quando faz faz uso de seus pincéis. Deveria o nosso patrício, e amigo, atuar continuadamente com o mesmo ardor de outrora, que embalara os seus sonhos artísticos.

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Leitura da Carta Régia de Paranaguá
Foto: Celso Luck
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Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá
foto: Zé Muniz.
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        Há algumas outras citações, principalmente de FREITAS, relacionando seu nascimento ao ano de 1904, na comunidade de Morato, sendo filho de Antônio Lopes da Silva e Albina Calado da Silva. Sua mãe falece aos 21 anos, época que Rafael muda-se para Paranaguá, ainda com 12 anos de idade. Em 1926, quando servia o 9º R.A.M em Curitiba, começou a pintar.  No ano de 1928, Didio Costa – Prefeito de Paranaguá, impressionado com seu talanto, lhe doa bolsa de estudo de 05 anos (03 em Curitiba com Alfredo Andersen e 02 anos no Conservatório do Rio de Janeiro), porém estuda apenas 02 anos com Andersem, devido a Revolução de 30, na mudança do sistema sua bolsa foi cortada, quando começa então sua carreira profissional em Paranaguá.  Casou-se com Natália Costa Silva, com quem teve duas filhas professoras, Zilca e Carmem Lúcia. Paranaguá detém sua obra “Ceia de Cristo” e “Leitura da Carta Régia”, pertencente a Prefeitura Mnicipal, sendo o último no Instituto Histórico e Geográfico. Houve na Inglaterra a exposição “França Livre”, quando Rafael mandou à embaixada o retrato do General Degaulle, tendo no fundo a bandeira da França livre com a cruz de Lorena, porém havia assinado a obra, o que era proibido na exposição, ficando de fora. Alguns anos depois, a embaixada francesa lhe escreve, pedindo autorização para doar a obra ao presidente da França, o que concorda. Também um quadro seu (o interior do Convento dos Jesuítas), foi encomendado como presente ao Presidente do Paraguai, em poder do General Stroesner em Assunção.
        Rafael recebeu na Câmara de Paranaguá a medalha de ouro “Honra ao Mérito”, pelos relevantes serviços de pintor emérito prestados à cidade de Paranaguá, sendo também reconhecido como Cidadão Honorário de Paranaguá.
        Nos últimos anos, ministrava aulas de pintura e desenho, contratado pela prefeitura de Paranaguá. Rafael Lopes da Silva faleceu em 08 de agosto de 1980, deixando obras de extrema beleza.
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Acervo da Câmara Municipal de Paranaguá
disponível em :

Arthur Bernardes – Rafael Silva / 1947 / 60×48cm / óleo sobre tela.

Washington Luiz – Rafael Silva / 1947 / 61×48cm / óleo sobre tela.
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Acervo do Museu Paranaense

Guaraqueçaba (óleo sobre tela) - Rafael Lopes da Silva
Foto: Jhoimar Campos Silveira.

REFERÊNCIA:
1 - Guia Turístico e Informativo de Paranaguá. 2 Ed. Diretor Proprietário Azis Mansur. Paranaguá: 1962. Páginas 134, 135.
2 - FREITAS, Waldomiro Ferreira de. Paranaguá das Origens a Atualidade. IHGP: 1999.
3 - MUNIZ, José Carlos. Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo. Obra inédita. do autor.



3 comentários:

  1. Obrigada .....pelas belas imagens históricas....são referencias para nosso presente.
    Parabéns.
    Um baraço.
    MLSB

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  2. Parabéns!
    pelo belo trabalho de divulgar as belas imagens históricas..
    Gilda

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  3. Guaraqueçaba é linda, tenho orgulho de ter nascido nessa cidade maravilhosa

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