"Eu considero Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo"
- Padre Mário Di Maria - (12/07/1974 - entrevista ao Jornal Diário do Paraná)

31 de julho de 2011

Bom Jesus dos Perdões de Guaraqueçaba

"Deus salve Guaraqueçaba / o Morro do Quitumbê
a coisa mais importante / na ponta dele se vê
a igreja do Bom Jesus / sempre vai permanecer".
                                 Pedro Nilo Nascimento (In Memoriam).
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       Por inúmeras vezes ouvimos e por pertencer a tal tradição, também pronunciamos, esta que se tornou "normal" no linguajar caiçara, pelo menos ao que se refere a região de Guaraqueçaba, Paranaguá, bem como Cananéia e Iguape: "Meu Bum Jisus" ou mesmo "Meu Bom Jesus de Iguape".
      Em muitas ocasiões ouvi até mesmo sair tal pronunciamento da "boca" de protestantes do catolicismo, o que me faz ver que se tratando do Bom Jesus, este culto caiçara ultrapassa as barreiras impostas por religiões e sobressai como motivo de fé, resultante da crença dos antigos povos caiçaras e que até hoje sobrevive em determiados lugares com tamanha força e representação e outros nem tanto, mas com certeza aumentando a cada dia em Iguape, terra em que teve origem esta devoção ao santo Cristo, na forma de "Bom Jesus" e que recebe no mês de agosto milhares de romeiros, vindos dos mais longíncuos lugares, inclusive de Guaraqueçaba, Superagui, Barra de Ararapira, Ilha das Peças, etc...
... esta crença é herança de tempos remotos, em que a devoção praticada por este povo naquela cidade, ultrapassou as barreiras e igualmente veio a ser praticada em Paranaguá e Guaraqueçaba, o que fez manter viva até dos dias de hoje a fé no Bom Jesus de Iguape.

       Se procurar-mos a origem bíblica para justificar a imagem, talves possamos nos basear na seguinte passagem do livro sagrado do cristianismo:

“Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-no com todo pelotão. Arrancaram-lhe as vestes e colocaram-lhe um manto escarlate. Depois trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lhe na cabeça e puseram-lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante dele, diziam com escárnio: “Salve, Rei dos Judeus”.
Mt 27, 27 – 29.
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O achado da imagem na Praia do Una em Iguape.
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        Na cidade de Iguape, o culto ao Bom Jesus é uma tradição iniciada no ano de 1647, quando no mês de fevereiro, um navio português levava a imagem do Senhor Bom Jesus para Pernambuco que estava sob o domínio holandês e quando já próximo do destino o navio foi abordado pelos holandeses e a tripulação com receio que seus objetos fossem saqueados e as obras santas profanadas, lançaram a imagem do Bom Jesus no mar.
        Nove meses mais tarde, na Praia da Una, dois índios enviados à Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, pelo Sr. Francisco de Mesquita, morador da Praia da Juréia, avistaram os objetos nas ondas, próximo da praia. Resgataram o caixote de madeira, no qual estava a imagem e também algumas botijas de azeite, que boiava ao lado. Trouxeram a margem, colocaram-na de pé, com o semblante virado rumo ao nascente e rumaram na direção que iam. Quando retornaram, ficaram surpresos ao verem a imagem ainda de pé, porém com o semblante virado ao poente, chegando no local onde moravam contaram o acontecido.
        Na manhã seguinte, Jorge Serrano, líder comunitário, acompanhado de sua esposa Ana de Góes, seu filho Jorge Serrano Filho e sua cunhada Cecília, tomaram o caminho da Praia da Una, avistando a imagem, puseram-se de joelhos e rezaram. Usando uma rede de pesca resolveram levá-la para Iguape.
        No meio do caminho, acercou-se deles um grupo de pessoas, informados pelos índios do achado, e queriam levar a imagem para a Vila de Nossa Senhora de Itanhaém – sede da Capitania. Ao tentarem virar o cortejo para esta vila, a imagem surpreendentemente tornava-se muito pesada, a ponto de não conseguirem carregá-la, ao contrário de quando tentavam levá-la para Iguape.
        E levaram para Iguape e nos dias da caminhada, aumentava a procissão, parando quando encontraram um lugar de rara beleza, banhando a imagem sobre as pedras de um riacho.

início da construção da capela ao Bom Jesus em Iguape
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A capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões – em Paranaguá.
        
antiga capela do Bom Jesus dos Perdões em Paranaguá
acervo: Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá / Museu da Imagem e do Som.

        Em 1710, os moradores da Vila de Paranaguá, conseguiram autorização, pelo seu fiel devoto o senhor José da Silva e Barros, para construir uma capela sob a invocação do Senhor Bom Jesus dos Perdões, concluída entre 1711 e 1712, com devida autorização eclesiástica, conforme Provisão do Bispo do Rio de Janeiro - Dom Francisco de São Jerônimo. O Devoto-Mór José da Silva e Barros, faleceu em 1730, ano em que a capela ficou sob a protetoria de Gaspar Gonçalves de Morais, depois sob responsabilidade da Ordem Terceira de São Francisco, da Irmandade de São Benedito  e seu último Protetor, o Comendador Manoel Francisco de Correia Júnior, em 1835, sendo que em 1902, as instalações da Capela do Bom Jesus foram cedidas à Congregação das Irmãs de São José, onde funcionou como colégio até 1936. Em 1938 a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, otendo o domínio, porém encontrando a capela em deplorável estado de conservação, optaram por vendê-la e o novo dono a demoliu em 1938.

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autoria desconhecida / direitos reservados
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         Sendo provavelmente, desta devoção ao Bom Jesus dos Perdões em Paranaguá e da maior ao Bom Jesus de Iguape / SP, que tenha se iniciado a devoção ao Bom Jesus, na ilha de Povoçá em Guaraqueçaba – tendo inclusive o nome “Povoçá” em uma das definições, alegando ser a palavra originária do indígena “Pae Massu”, e ter seu significado em “Pai Grande - ou Deus - dos Brancos”, designando que a ilha era do Bom Jesus – o Deus dos Brancos.

        O Bom Jesus do Povoçá / Bom Jesus de Ilha Rasa – a festa como era, relatada por João Alves Batista (In Memorian), mais conhecido por João Buso, nascido na Ilha das Gamelas em 1930:

“Era na Ilha de Pagoçá, lá que tinha um Santo do Bom Jesus, mas é uma história muito comprida. Tinha lá era uma imagenzinha do Bom Jesus, mas era assim pequeninha assim (faz com os braços uma medida equivalente a cerca de 50 cm de altura), ela ficava dentro de uma manga de vidro, com uma coroazinha em cima da cabeça. Essa imagem ficava em cima de um cepo de madeira, lá dentro do rancho. Era um ranchinho assim, um rancho que os pescadores usavam quando iam soltar o espinhel ali por perto, então iam no rancho assar um peixe pra jantar, iam lá pra descansar, então ficavam ali no ranchinho e lá dentro tinha a imagem do Bom Jesus. E lá era um lugar bom pra pescar, que eles chamavam de “Moleque”, mas hoje já não existe mais, pois a maré já levou tudo, nós chamava de “Sabiá”, sabe, porque quando nós ia pescar, soltava a rede, lanceava e enquanto esperava pra buscar a rede, ia lá passarinhar, matar sabiá, que tinha muito lá naquele tempo. E o santo ficava lá, até que uma vez um prefeito de Guaraqueçaba, não me lembro o nome dele agora, mas eu sei. Então esse prefeito mandou buscar essa imagem do Bom Jesus de lá do ranchinho e mandou que levassem pra igreja de Guaraqueçaba. Mas no outro dia cedo, olhe não é de acreditar, foram na igreja rezar e aquela imagem do Bom Jesus não estava mais lá. Avisaram o prefeito e todo mundo procurou e nada de encontrar. Daí tinha um pescador que veio da Ilha Rasa e passou lá no Pagoçá e viu a imagem lá de novo, contou pro prefeito e foram lá ver, até polícia tinha, foram tudo ver e ao Bom Jesus tava lá no ranchinho do Pagoçá. Então já que o santo tava lá, o prefeito disse: “Pois que fique aí então”, então meu avô, que era José Xavier, olhe ele morreu com 115 anos, pediu pro prefeito né: “Seu prefeito então deixe nós levar o Bom Jesus alí pra Ilha Rasa, que é perto e quem sabe ele se acostuma ali né?”. E o prefeito deixou. Levaram o Bom Jesus pra Ilha Rasa. E todo ano, pelos dias 05 e 06 de agosto é que tinha a Festa de Nossa Senhora das Neves e do Bom Jesus de Ilha Rasa. Começava com o estouro do estopim, porque lá tinha duas peças, que era de metal decerto, mas era grande, tipo um pote bem grande. Então ali dentro, colocavam pólvora, socavam o estopim, esticavam um pavio bem grande, comprido, assim, até lá, bem longe né, daí ascendiam e atiravam no dia da festa. E era nós mesmo que cantava as novena na festa do Bom Jesus, os terço e era tudo cantado. Então pelo dia 06 de agosto, de tarde, encerrava a festa, então tinha era de tudo, grande gentarada, tinha o leilão de prenda, tudo era pra igreja e acabando as festa, ia todo mundo pro fandango, naquele tempo tinha lá umas 3, 4 casas de fandango e ali dançavam até as 3, 4 horas da manhã, mas noutro dia, dia 07 de manhã ainda tinha o terço dos romeiros que era cantado também. Pelo final de cada festa, tiravam os noveneiros sorteados, os festeiros e as festeiras. Mas tinha também o Capitão do Mastro, era o cara que tirava o mastro no mato, com o povo e ele era responsável por pintar o mastro, que podia ser de vermelho, branco, preto, assim de um jeito bem bonitinho né. Era um mastro grande, as vez faziam de Guanandi comprido que dava 06, 08 metros de comprido, bem cipilhadinho, tinha a corda que fazia correr a Bandeira e esse mastro era erguido na 1ª Novena do Bom Jesus, pelo dia 26, 27 de julho. Sorteavam também o Alferes da Bandeira, esse ficava responsável né, era ele que mandava pintar a Bandeira, pra no dia de “Erguida do Mastro” colocar a Bandeira do Bom Jesus lá. Então uma vez me chamaram pra rezar a festa lá, que não tinha padre e eu fui lá cantar uma missa na festa deles. Depois uma mulher de lá me chamou no lado e disse: “Escute, este Bom Jesus aí ó, cresce o cabelo dele”. Eu olhei e assim de vista parecia mesmo. Mas é uma coisa que as pessoas acreditam né. Eu não vou duvidar porque o Bom Jesus é um santo milagroso. O povo dava valor pra imagem, mas num é ela que faz o milagre. Ela é uma fotografia do Bom Jesus. Minha bisavó fez uma promessa pro Bom Jesus. Ela tava ca perna que só ferida, não podia andar, não dava pra ela sair de casa. Ela fez uma promessa que se a perna dela sarasse, que ela queria ir na festa do Bom Jesus da Ilha Rasa e nós morava na ilha da gamela. E não é que no dia 06 de agosto, não é que sarou a perna dela e ela foi na procissão. Mas não foi a imagem, foi o Jesus é que fez o milagre”.
(João Alves Batista).

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Em Guaraqueçaba:
        Do culto e devoção ao Bom Jesus do Povoçá, originou-se em Guaraqueçaba o culto ao Bom Jesus de Guaraqueçaba, com sua capela erguida em 1838 e segundo relatos, a imagem do Senhor Bom Jesus, chegou a Guaraqueçaba, trazida da vizinha cidade de Paranaguá por volta do ano 1912, por pescadores, em canoa a remo, levando no trajeto mais de 12 horas remando, sendo esperada por muitos católicos no porto.
        por ser antiga, houve um período em que esta imagem não mais podia ser retirada da igreja para seguir em procissão, pois corria riscos de danos maiores. A cada ano então, no dia da procissão era trazido a imagem da Ilha Rasa, até o ano de 1995, quando o Pe. Wiktor Pazek CM, recebeu de amigos a doação da nova imagem do Bom Jesus dos Perdões.

Padre Mário Di Maria ao lado da imagem do Bom Jesus.
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Hino do Bom Jesus
        Não se sabe dizer com precisão a data de adoção do hino ao Bom Jesus, mas já nos anos de 1921, segundo escritos do Coronel Sebastião Gomes de Faria (que foi prefeito de Guaraqueçaba nesta época), cantava-se este hino ao Bom Jesus dos Perdões de Guaraqueçaba, principalmente aos domingos, após os terços dominicais. É o mesmo entoado nas celebrações ao Bom jesus em Iguape/SP.

Senhor Bom Jesus / Deus de perdão
Da alma pecadora / tende compaixão.

Senhor Bom Jesus / Deus de Compaixão
Aceitai benigno / esta nossa devoção.
Senhor Bom Jesus / Deus de bom fim
Na hora da morte / lembrai-vos de mim.
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Imagem peregrina de Nossa Senhora do Rocio ao lado da imagem do Bom Jesus dos Perdões.

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        Das histórias de lição do povo caiçara, nos conta o meu pai, o Sr. José Hipólito Muniz, que "um morador do Morro da Parada, lá perto da Ilha da Casca”, certa vez fez um multirão de cavação e era justamente do dia 05 para amanhecer com baile no dia 06 de agosto - dia do Bom Jesus. Ele queria aproveitar os que não foram à festa em Iguape, para cavarem e plantarem a mandioca, o que não foi aceito por muitos, mas mesmo assim ainda encontrou alguns que tomaram a empreitada, com total desrespeito ao dia santo. Trabalharam o dia inteiro e a noite dançaram um fandango, até que animado, amanhecendo no dia do Bom Jesus e logo rompendo o dia, o violeiro deu a despedida, indo todos para suas casas. Pela tarde, “lá pelas 03 horas da tarde, baixou um bando de corvo na roça dele, mas eram em tantos que chegou até a tampar o sol”, ficando o dono do roçado em total desespero. Somente noutro dia ele pode constatar e ver o que acontecera na sua roça, ficando decepcionado, pois não restara sequer um pé de mandioca plantado. Naquele pedaço de terra, onde os corvos arrancaram toda a plantação daquele que fez um fandango em dia santo, “nunca mais cresceu vegetação e até hoje se depara com um lugar deserto, onde não cresce um só pé de mato”.
 

http://www.youtube.com/watch?v=V0Q7sUnFiYU

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vídeo da carreata em louvor a Nossa Senhora das Neves e procissão marítima em louvor ao Nosso Senhor Bom Jesus dos Perdões - 2013
 

REFERENCIAS:
MUNIZ, José Carlos. Bom Jesus dos Perdões de Guaraqueçaba. Obra inédita. do autor.

FREITAS, Waldomiro Ferreira. Paranaguá das origens a atualidae. Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. 1999.

MUNDO CULTURAL PRODUÇÕES. Documentário Santa Fé Festa do Senho Bom Jesus de Iguape. 2007.

AGRADECIMENTOS:
Maria de Lourdes Amorim Consentino (In Memoriam), Manoel Amorim (In Memoriam), João Alves Batista (In Memoriam), Waldemar Harry Krueger (In Memoriam).

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Lei Orgânica do Município de Guaraqueçaba
TÍTULO VII
ATOS DAS DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS
Art. 221 - O Município comemora anualmente as seguintes datas:
a) Dia 05 de agosto - Dia do Padroeiro da Cidade, Bom Jesus dos Perdões.
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O dia dedicado ao Bom Jesus dos Perdões é 06 de agosto. dia 05 de agosto é dedicado em louvor a Nossa Senhora das Neves, que tem igual devoção também em Iguape e Guaraqueçaba.

26 de julho de 2011

Elefante Marinho e outros seres que por estas terras apareceram...

        De histórias um tanto difíceis de se acreditar nossa região está CHEIA... Seguem algumas delas, inclusive já publicadas em antigos jornais que circulavam no Paraná, que infelismente perdi a referência.
        Certa vez, o que causou espanto na população fora o Monstro Assustador, que como contava o Sr. Gustavo (In Memorian), certa vez por aqui aparecera este bicho muito feio, de couro liso e lustroso, com uns dentes para fora e de bigode. Alguns dizem hoje que seria uma foca, mas que assustou toda cidade naquele tempo. Já o Sr. Luizão (In Memorian), vira publicado sua história sobre seu amigo o Boto Pintado, que muito o ajudara quando " o mar não estava bom para peixe", pois bastava pedia a ajuda de Pintado e o boto enchia sua canoa de peixes. Já Zelândio gostava de contar sobre a Onça que seu avô pegara, que "Juro dor Deus" media 22 palmos de comprimento. Já Celmiro (In Memorian) conta de uma enorme Jamanta (peixe) que avistaram no porto e que chegava a fazer sobra na água, com as asas abertas dava quase as medidas da baia, do porto ao mangue do Povoçá. Fisgaram por todos os lados a amarraram na vila, porém quando ela deu uma mexida arrancou todas as amarras, desaparecendo no mar.
        Nas minhas vagas lembranças, nada havia causado tanto medo e pavor quanto a "escuridão". Na televisão já se anunciava: "Pela manhã, o dia vai ficar noite" - algo assim. Alguém disse que era o "fim do mundo". Por certo um louco, divulgou um folheto com mensagens sobre o acontecimento final para a humanidade, naqueles dias de escuridão que se aproximavam. Trazia, inclusive, orientações para que não abrissem as portas de casa, nem acaso alguém do lado de fora assim pedisse. E aos que olhassem a "escuridão" ficariam cegos e ...
... Chegou o dia - eclipse total do sol - realmente, pelas nove horas da manhã, escuridão total em Guaraqueçaba... Os animais nem bem sairam e já se recolhiam, pássaros, galinhas, todos retornando ao abrigo - nós éramos num número de poucos guaraqueçabanos, subimos o Morro do Quitumbê e tivemos o privilégio de ver tal fenômeno - Incrível. Enquanto muitos, trancados em suas casas, apenas oravam pela sua salvação.
        Mais sem dúvida, o que mais causou espanto no povo de Guaraqueçaba, inclusive levando muitos a entrar em pânico foi a Bolha que atravessou o céu da região. Há até quem diga que escureceu toda a cidade e que os moradores se trancaram em casa. Foi na época da passagem do dirigível pelo litoral do Paraná. A seguir fotografias do dirigível passando pela cidade de Paranaguá. Por lá eles também se assustaram. Confira
Passagem do dirigível em 1936
Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá / Museu da Imagem e do Som

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        MAS E ESTE BICHO QUE APARECEU RECENTEMENTE???????

        Este tem explicação e não precisamos nos assustar. É um Elefante-marinho, recentemente encontrado no mangue, aqui mesmo na baía de Guaraqueçaba.
        Dizem os biólogos, que "é até comum nesta época do ano os animais de regiões polares virem para cá em busca de alimentos, mas já fazia muitos anos que não se tinha registro de um elefante-marinho na região".
       O animal, de 3,5 metros, é um macho juvenil da espécie Mirounga Leonina. De acordo como o CEM - Centro de Estudos do Mar (UFPR), o último avistamento de um leão marinho havia sido registrado em 1985.



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REFERÊNCIAS:
http://www.youtube.com/watch?v=5YxW834fJXY - acessado dia 26 de julho de 2011. 15:30hs.


15 de julho de 2011

João Buso - seu legado cultural permanece...

“Mamãe quero me casar / filha dize-me com quem
com filho do sapateiro / filha não casai meu bem
sapateiro bate couro / outro ofício ele não tem
co o filho do fazendeiro / que ao menos dinheiro tem
mamãe quero me casar”.
(João Alves Batista – João Buso).
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foto: Felipe Varanda / Museu Vivo do Fandango

        Numa época em que o protestantismo não estava inserido na região, o catolicismo não dava "conta" de visitar todas as comunidades, restava a eles - CAPELÃO - fazer a reza dos terço-cantado, novenas, cultos e outras celebrações de cunho religioso que necessitassem na comunidade.
        Não era diferente na Ilha Rasa, onde ali perto, nas Gamelas, residia Seu João Buso, como todos o conheciam. Seu nome João Alves Batista. nascido naquelas bandas pelos idos de 1930, seu João Buso era um exímio violeiro de fandango, cantador de Romaria do Divino Espírito Santo, Puxador do Terço-Cantado (o último Capelão) e um grande contador de histórias e causos de nosso povo Caiçara.

        Das conversas que tivemos, não podia deixar passar as falas sobre o terço cantado, a Romaria do Divino e a festa do Bom Jesus na sua Ilha Rasa querida, que há tanto tempo não visitava... e dizia: "logo eu vou visitar lá".


“Era na Ilha de Pagoçá, lá que tinha um Santo do Bom Jesus, mas é uma história muito comprida. Tinha lá era uma imagenzinha do Bom Jesus, mas era assim pequeninha assim (faz com os braços uma medida equivalente a cerca de 50 cm de altura), ela ficava dentro de uma manga de vidro, com uma coroazinha em cima da cabeça. Essa imagem ficava em cima de um cepo de madeira, lá dentro do rancho. Era um ranchinho assim, um rancho que os pescadores usavam quando iam soltar o espinhel ali por perto, então iam no rancho assar um peixe pra jantar, iam lá pra descansar, então ficavam ali no ranchinho e lá dentro tinha a imagem do Bom Jesus. E lá era um lugar bom pra pescar, que eles chamavam de “Moleque”, mas hoje já não existe mais, pois a maré já levou tudo, nós chamava de “Sabiá”, sabe, porque quando nós ia pescar, soltava a rede, lanceava e enquanto esperava pra buscar a rede, ia lá passarinhar, matar sabiá, que tinha muito lá naquele tempo. E o santo ficava lá, até que uma vez um prefeito de Guaraqueçaba, não me lembro o nome dele agora, mas eu sei. Então esse prefeito mandou buscar essa imagem do Bom Jesus de lá do ranchinho e mandou que levassem pra igreja de Guaraqueçaba. Mas no outro dia cedo, olhe não é de acreditar, foram na igreja rezar e aquela imagem do Bom Jesus não estava mais lá. Avisaram o prefeito e todo mundo procurou e nada de encontrar. Daí tinha um pescador que veio da Ilha Rasa e passou lá no Pagoçá e viu a imagem lá de novo, contou pro prefeito e foram lá ver, até polícia tinha, foram tudo ver e ao Bom Jesus tava lá no ranchinho do Pagoçá. Então já que o santo tava lá, o prefeito disse: “Pois que fique aí então”, então meu avô, que era José Xavier, olhe ele morreu com 115 anos, pediu pro prefeito né: “Seu prefeito então deixe nós levar o Bom Jesus alí pra Ilha Rasa, que é perto e quem sabe ele se acostuma ali né?”. E o prefeito deixou. Levaram o Bom Jesus pra Ilha Rasa".

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foto: Zig Koch / Projeto Tocadores
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TERÇO-CANTADO
"Deus vos salve – Maria Mãe de Deus Pai
Deus vos salve – Maria Mãe de Deus Filho
Deus vos salve – Maria Esposa do Espírito Santo
Deus vos salve – Maria Templo do Sacrário da Santíssima Trindade"

“quando o Terço-Cantado era bem feito, no inteiro, dava uma hora por aí, há vai mesmo uma hora, era o Terço-Grande, quando diziam que era o Terço cantado inteiro. Lá na Ilha Rasa, os Capelão que tinha lá era meu avô, José Xavier, depois João das Pedras meu outro avô, Manuel Alves que é meu pai e hoje sou eu, João Alves Batista”.
(entrevista cedida em 2006)

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Quando do falecimento de alguém na comunidade, era cantado a "Excelência" sobre o corpo presente:

(acompanhe no vídeo)

video
vídeo: fragmento do documentário "Divino folia, festa, tradição e fé no litoral do Paraná".

(repetia-se o verso por quinze vezes).
Podia-se cantar também o seguinte verso:

"Senhor Bom Jesus
que na cruz morreste
Salvai esta alma
por que padeceste”.

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Ilha Rasa
Arquivo: Projeto Traços Culturais das comunidades do litoral do Paraná
(UFPR LITORAL / Universidade Sem Fronteiras)

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       Conhecedor das antigos fandangos, era muito procurado, tendo contribuido para inúmeras pesquisas que retrataram a cultura caiçara, sendo que no ano de 2009, por iniciativa do Grupo Mandicuera foi selecionado no Prêmio Culturas Populares Mestra Izabel artesã ceramista do Vale do Jequitinhonha/MG prêmio da Secretaria da Diversidade Cultural/Ministério da Cultura.
        Muito de seu conhecimento, repassado ao Grupo Mandicuera, hoje faz parte dos espetáculos e do acervo deste, que em breve lança um documentário sobre a vida e o conhecimento de João Buso acerca do Terço-Cantado, tradição esta que seu João fez questão de ensinar para Aorélio Domingues, após este ter concordado com o pacto que segue o repasse deste conhecimento: "aquele que aprender terá que cantar no velório do Mestre que o ensinou"...

... e assim fez Aorélio, neste mês de junho, quando faleceu o Mestre João Buso. 
Seu João Buso e Aorélio Domingues
imagem captada do documentário "Divino folia, festa, tradição e fé no litoral do Paraná".

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BANDEIRA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

detalhe "Divino Espírito Santo" no vitral do Museu/Capela do Divino Espírito Santo
Associação Mandicuéra de Cultura Popular / Ilha dos Valadares / Paranaguá

"Lá na Ilha Rasa, tinha as duas Bandeiras, da Trindade e do Espírito Santo, que saiam juntas só na procissão da festa; Agora de Romaria era a Bandeira do Espírito Santo que antigamente saia da Ilha Rasa pra fora; e lá ia Bandeiras de outros lugares também, então ia a Romaria ca Bandeira de Cananéia, de Guaraqueçaba, da Colônia de Serra Negra. Na Ilha Rasa tinha foliões dos bons, era Antonino Borges, que era o mestre, José Correa, que era na Rabeca, também tinha o Gabino Vicente, esses eram de Serra Negra, mas nós levava eles pra tirarem a Bandeira lá na Ilha Rasa. A Festa do Espírito Santo, saia no dia 08 de agosto, aí saia a Romaria. O festeiro pedia pra igreja a imagem do Divino e saia na Ilha Rasa inteira, depois passava nas casas, na Ilha das Gamelas, Medeiros, Tromomó, ia por tudo lá. Então o povo tava roçando, fazendo qualquer outra coisa, escutava aquele “bum bum bum”, da Bandeira, “escute vem a Romaria aí”. Largava tudo e ia embora pra atender a Bandeira. Ninguém trabalhava naqueles dias".

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Contando história do "Arurá" para as crianças
imagem captado do vídeo "Gigantes do Imaginário".

HISTÓRIAS
“Eu vi uma vez o saci no mangue”. O saci é um coisinha pitoco, usa um cachimbinho e não tem uma perna, olhe não sei que tirou aquela perna dele, mas que ele gosta de fandango, hô rapaz". Conta que certa vez foi com seu pai, a remo, da Ilha das Gamelas, próximo a Ilha Rasa: “lá no Saco da Pedra”, e enquanto o pai fora resolver alguns assuntos, ele ficou deitado na popa da canoa e como já tinham soltado a rede, apenas esperava o momento de recolhê-la. “Rapaz de Deus. Decapoco escutei aquele parapapa parapapa parapapa”, se assustando e logo perguntando ao pai quando este chega na canoa. Não houve dúvidas, o pai logo confirmou: “esse aí? Vede é o saci dançando fandango”.
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“Lá na Serra Negra, uma vez fizerão um Multirão pra roçá arroz, cabou-se o serviço e de tarde foram pra casa, pra volta de noite pro fandango”.
Havia lá uma moça muito bonita, que tinha um menino muito agarrado “não largava da saia da mãe, ia pra lá e pra cá atrás dela”.
A mãe, que havia trabalhado no roçado, queria ir no fandango de noite, mas o menino também não a largava. Ela falou: “Larga de mim menino, por que o diabo não leva essa porcaria”, e foi pro fandango, onde dançou a noite inteira.
Noutro dia cadê o menino. “Todo mundo procurando” e se passou três dias e nada de encontrarem esse menino. Quase que desistirão, até um dia que um certo Mané Maria, caçador, foi pro mato visitar um mundéu que havia armado e lá no Morro do Chapéu, numa grande lonjura, ouviu um choro de criança e voltando pra casa contou pra vizinhança.
O povo se reuniu e foram ver do que se tratava. Rapaz era lá longe, num lugar só de espinho maranhado e lá no centro tinha um lugarzinho limpo, que tava o menino sentadinho. Quando o menino viu a vó, que tinha ido procurá, saltou e correu abraçá ela.
Pois a mãe tinha dado o menino pro capeta e ele levou né.
*
 
        Na última vez que o visitei, para entregar exemplares do livro "Uma Romaria do Espírito Santo", o que era pra ser uma rápida visita, tornou-se uma longa conversa. Era um grande saudosista. estava triste. Sua esposa recém havia falecida.
 
 
BIBLIOGRAFIA
MARCHI, Lia. Tocadores homem, terra, música e cordas. Olaria Projetos de Arte e Educação: 2002.
 
MUNIZ, José Carlos. Terço Cantado: Uma manifestação de fé da cultura caiçara. obra do autor. inédito.
-------------------------- Fandango: na alma caiçara. Obra do autor. Inédito.
-------------------------- Bom Jesus dos Perdões de Guaraqueçaba. Obra do autor. inédito.
 ------------------------- Uma Romaria do Espírito Santo. Imprensa Oficial. Secretaria do Estado da Cultura. Curitiba: 2010.
 
PIMENTEL, Alexandre, GRAMANI, Daniela, CORREA, Joana (org). Museu Vivo do Fandango. Rio de Jasneiro: Associalção Cultural Caburé, 2006.
 
DOCUMENTÁRIOS
1 - Tocadores Litoral Sul (2003) - direção de Lia Marchi e L. M. Stein.
2 - Divino folia, festa, tradição e fé no litoral do Paraná (2008) - direção Lia Marchi e Maurício Osaki.
3 - Gigantes do Imaginário (2007) - Coordenação de Alessandra Flores, Gesline Braga, Otávio Zucon. FUNARTE Fundação Nacional da Arte.
 
LINKS
http://www.olariacultural.com.br/
http://www.museuvivodofandango.com.br/
http://www.mandicuera.com/

11 de julho de 2011

Mato que vira mar, mar que vira mato

por Juliane Bazzo

* Artigo participante do Concurso Cultural Natura Ekos “Redescobrindo o Brasil 2010” que, para celebrar o Ano Internacional da Biodiversidade, convidou pessoas a contar histórias pessoais vivenciadas em biomas brasileiros.


        A exuberância da Mata Atlântica revela-se para mim a partir de um lugar chamado Barra de Ararapira, uma pequena vila de pescadores localizada na Ilha do Superagüi, litoral norte do Estado do Paraná. Nessa região, está situado um dos remanescentes mais bem conservados desse bioma no país. Conheci este vilarejo em 2004, trabalhando como jornalista para uma organização não-governamental ambientalista paranaense. Desde então, essa localidade não deixou mais de me intrigar, o que me conduziu a nela desenvolver minha pesquisa de mestrado em antropologia social.

        Lá, como me disse uma nativa, o mato vira mar e o mar vira mato. O vilarejo está assentado próximo da chamada barra, desembocadura de acesso do Mar de Ararapira ao Oceano Atlântico. A semelhança entre tais denominações geográficas e o nome da vila de pescadores, portanto, não é uma mera coincidência. O contínuo movimento de areia e água nesse canal desencadeia um processo erosivo natural, que obriga os moradores de Barra de Ararapira a transferir, de tempos em tempos, suas casas, construções e rotas de pesca. Segundo dados de estudiosos, a erosão eliminou, entre 1953 e 1980, cerca de 120 hectares do vilarejo, o equivalente a 120 campos de futebol de medida máxima.


        O leitor deve estar se perguntando: o que convence pessoas a viver nesse território em movimento? Não seria mais simples se mudar? Para os habitantes de Barra de Ararapira definitivamente não. Viver próximo da barra significa também estar perto da saída para o mar aberto, de onde vem o pescado mais variado e volumoso, que garante o bem-estar das famílias pescadoras. Relatos de história oral demonstram que essa vila formou-se justamente pela busca ancestral por águas piscosas. A barra vem se movimentando secularmente e, com ela, caminha junto todo o vilarejo. “É o êxodo”, “A barra é a nossa bússola”, disseram-me moradores. Relatos de prosperidade e transitoriedade, marcas vivas dos paradoxos de nosso complexo e, por isso encantador, planeta.

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