"Eu considero Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo"
- Padre Mário Di Maria - (12/07/1974 - entrevista ao Jornal Diário do Paraná)

24 de junho de 2011

Fogueira de São João na comunidade de Utinga

durante toda minha infância ouvi minha mamãe dizer: "meu filho não presta brincar com o fogo", "Larga essa braza". Ao mesmo tempo que me alertava para o perigo, também para o respeito com o FOGO, este que é essencial na nossa vida de caiçara.
MAS MESMO ASSIM SEMPRE QUEIMOU!
Até que em minhas pesquisas ouvir dizer, que na noite de São João (24 de junho), a fogueira feita em homenagem ao santo, "é fria", "não queima".
como pode ser? Não, não pode ser.
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Alguns anos tentando encontrar tempo e disponibilidade. Alguns colegas foram ver e me respondiam: "Vá ver".
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Nos dois últimos anos não teve: motivo: forte chuva.
Neste 2011, após confirmar o convite, reunimos uns amigos e fomos ver!
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DESTINO: Comunidade de Utinga/ Guaraqueçaba - PR
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uma das dificuldades hoje é encontrarem lenha por perto e tempo para irem atrás da lenha no mato e conciliarem essa atividade com sua profissão.
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a fogueira queimou - o "brazido" está ardendo - chamen Seu Alziro que tá quase na hora - já é quase meia-noite!
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Chegou Alziro Pedro, espalhou a madeira que ainda não havia queimado. Fez um rastro de brasa ardente no meio. Com este galho abanou  e ascendeu a brasa. Fez um sinal de cruz sobre a brasa e...

Alziro é o responsável por fazer e benzer a fogueira

... retirou seus chinelos. ACREDITEM. sobre a brasa ardente, vermelha, acesa, atravessou, sem problema nenhum - na noite de São João o fogo não queima!
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Logo em seguida Michelzinho, sem hesitar retirou seu tênis e atravessou. A partir de seu relato "não queima, não queima. é bem quentinho e macio", criamos coragem a ao ver as crianças, mulheres, fila de rapaziada da comunidade, não podia ficar apenas fotografando.
Ei - segure minha câmera, vou passar.
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Opa Ruthinha passou de novo, pela segunda vez.
Mas agora sim é minha vez...
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e fui.
realmente, inacreditável - na noite de São João eu cheguei a dançar sobre a brasa ardente - e como disse: "andando descalço sobre a pedra ou mesmo o mangue eu já machuquei meu pé muito mais do que aquela quentura fofa e macia da foguiera de São João".
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As crianças da comunidade estavam a todo vapor. O povo formou um semi círculo, davam risadas, alguns iam, outros não. Alziro abanava novamente para reascender aquele braseiro.
O ritual é passar de um lado a outro e voltar, nunca indo duas vezes do mesmo lado e sem ir junto com outro do mesmo lado, respeitando sempre a tradição e os significados do ritual, a brasa não queima e se queimar, este não poderá atravessar noutro ano.
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começou o forró. e ali deve ter ficado a noite inteira.
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       são inúmeras histórias dos "sem fé" que não conseguiram passar, ou daqueles meio torrados que quiseram atravessar e cairam no meio da brasa e nada lhes aconteceu e mesmo daquele que passou de tênis pensando que não iria queimar e teve que se desfazer do calçado, pois queimou tudo. O pé não queima. Tem que acreditar.
Como diz Seu Alziro: "é tudo cisma da pessoa, tem que acreditar e passar que não queima. mas é só na noite de São João".
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Lamentavam que tinha tanta gente, porque haviua caido nanoite de quinta-feira para sexta-feira, mas prometem pra ano que vem, quando será de sexta-feira para sábado, uma festa maior, com muita gente.
COMO SE AQUELA ALI NÃO BASTASSE PARA NOS IMPRESSIONAR.
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nos resta agrdecer a comunidade de Utinga - detentora da tradição de "passar a fogueira de São João".
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acréscimo em 2013

 

vídeo da fogueira de São João, na comunidade de Utinga, no ano de 2013

22 de junho de 2011

Guaraqueçaba de outrora - II

Acervo de João Amadeu Alves, gentilmente escaneadas e cedidas pelo seu filho João Amadeu Alves Júnior. Estas fotografias foram gentilmente disponibilizadas por um (a) parente de um ex-prefeito de Guaraqueçaba, que reside em Curitiba, mas infelismente não possuo os devidos créditos. Acredito que em sua maioria, pelo menos as mais antigas sejam da década de 1920, época da inauguração da Caixa da água.

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Festa do Divino Espírito Santo em Paranaguá

antiga equipe da Romaria do Divino Espírito Santo de Guaraqueçaba
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no dia dedicado ao DIVINO ESPÍRITO SANTO, último 12 de junho, na sede da Associação Mandicuéra - Ilha dos Valadares, Paranaguá, aconteceu a Festa do Divino.
Na ocasião, foi inaugurado o Museu/Capela, guardando ex-votos, histórias e pedidos, recolhidos na Romaria, que tradicionalmente os integrantes desta equipe recolhem em suas idas as casas dos ilhéus, neste lado do litoral do Paraná, levando em suas cantorias mensagens de paz e o desejo de muita saude e felicidade...
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levantamento do Matro do Divino
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foto: Paulinho
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Museu/Capela do Divino Espírito Santo

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Bandeira do Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade



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Equipe de Romaria do Divino de Guaratuba e de Paranaguá, logo após a celebração da Santa Missa do Divino Espírito Santo.

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há... sim! teve barreado, mãe c'filha, cataia, fandango, fogueira, oficina, palestras, roda de conversa, apresentação, violada, etc...
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se ligue e não perca ano que vem tem mais
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SALVE O DIVINO ESPÌRITO SANTO
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as fotos são de Zé Muniz, Claiton Araújo.

17 de junho de 2011

10 de junho de 2011

Canoa Caiçara - um povo e sua arte

        As canoas de um tronco só já são raridade, as madeiras mais usadas para a confecção de canoas eram a Guapuruvú (melhor, pois era branca, mole, porém apodrece mais rápido na água doce), Cedro, Timbuva, Canela-Preta, Urucurana, Guaricica, Guanandi, Canela-Garuva, Araribá, Caoví e Canela-Nhunguvira.
       Conhecimentos estes, desaparecendo, fente a fatores diversos, entre eles, a legislação ambiental.

       Inicio com a poesia de Carrigo, gravada no álbum "Vida Caiçara", do próprio artista, intitulado "Ubá (o último fazedô de canoa)" homenageando Sebastião Santos, Mestre Tião, de Serra Negra.

Ubá é uma canoa / feita de um pau só
Guapuruvu é árvore boa / que dá canoa feita de um pau só
Lá vai Mestre Tião / machadinha na mão
Vai fazendo a canoa / talhada num tronco só
Último guardião / mantendo a tradição
Último fazedô / da canoa de um tronco só
Mão do caiçara / Um dom natural
Tronco talhado / É canoa de pau.

Esta música foi trilha sonora do documentário "O último fazedô de canoa”, dirigido por Jussara Locatelli e Fernanda Morini, produzido pela Realiza Vídeo.
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Júlio Alvar, em 1979, observou o caiçara construindo sua própria canoa.
A seguir dois desenhos deste autor retratando esta arte.


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canoa ao mar
obra: Adailton Galdino (In Memoriam)
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construção de canoa de um tronco só
foto: Zig Koch
(reprodução / Direitos reservados)
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Construção de embarcação Baleeira
foto: Zé Muniz
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Canoa de um tronco só
foto: Zé Muniz
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Segue a entrevista com o Sr. Nivaldo Pontes Célio, 57 anos, morador da comunidade de Utinga, antigo construtor de canoa.

Zé Muniz: Como é que o senhor começa a fazer uma canoa?
Nivaldo: A canoa é no machado, né, tem que derrubar a madeira, que nem tem gente que trabalha com a motoserra, eu trabalho só com o machado. Derruba, tora, é difícil pra fazer, ...a motoserra hoje em dia é mais pra ajudar...

Zé Muniz: Qual é a melhor madeira pra fazer uma canoa?
Nivaldo: Olha vou falar bem a verdade a melhor madeira é cedro, depois tem a canela, Guapuruvu; Guapuruvuru não é madeira bom, poie é s a mais fraca.
Zé Muniz: Tem uma época de corta assim? Ou pode corta?
Nivaldo: Tem época, tem que ser na minguante, pra ficar bom tem que ser na minguante.
Rodrigo: O senhor usava a canoa pra ir até Guaraqueçaba antigamente, o pessoal usava?
Nivaldo: Usava. Todo mundo, primeiro era só na canoa, né, hoje ficou bom, hoje tem estrada aqui, primeiro era só na canoa. a depois tinha o caminho, e também o caminho né, passava um caminho e ia embora, vinha de Guaraqueçaba ia até o Batuva, até na divisa, lá. Aí depois que saiu a estrada tem um lucro, né; Hoje se a pessoa andar por aí não vê mais o caminho, fechou tudo.

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Rodrigo: Tem algum motivo pro senhor usar só machado?
Nivaldo: Não; Tem que ter machado, tem que ter enxó; Enxo-Goiva, Enxó-Chata: Enxó Chata é duas mão a Goiva é uma mão só.
Zé Muniz: Aprendeu com quem?
Nivaldo: Meu pai, meu pai trabalhava em canoa, eu era curioso né, um dia me convido pra fazer uma canoa, e fomo faze, Dae chegamo lá o que eu fiz, eu levei um papel, que eu tinha vontade de aprende, e a gente quando é novo tinha vontade de aprender tudo, depois de velho sim, daí já não adianta mais né. É que nem dirigir, eu tinha vontade de dirigir e hoje to dirigindo um pouquinho. Ent~so eu fui pro mato com meu pai, levei um pedaço de ápel, levei um papel, um pedaço de papel, um lápis, conforme o que meu pai fazia ali eu fui fazendo naquele papel, quando nós viemo de tarde eu tava com a canoa quase desenhada inteira, aí depois eu terminei de fazer a canoa com ele, mas o meu papel eu levei, anotei tudinho, aí depois fomo e fizemo mais outra, aí depois já fui faze sozinho, derrubei duas madeira e fui fazer sozinho. E depois que tava pronta meu pai passou lá: Nivaldo você tá fazendo canoa melhor do que já!
Zé Muniz: Como que fazia, ia no mato derrubava a madeira, e pra tira a canoa de lá?
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pescador ao mar em sua canoa de um tronco só
foto: Guto Lelo
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Nivaldo: Ah dae tem que fala com gente né, pra varar a canoa, né, conforme a canoa tem que ser 10, 12 pessoas.
Paulo: Varar que o senhor fala é tirar ela?
Nivaldo: é. varar é assim pegar e puxar ela. faze um caminho, faz uma piçada boa, e dae vai varar.
Zé Muniz: O senhor pagava as pessoas que ajudavam?
Nivaldo: Não, primeiro não pagava, hoje que tem o negócio de pagar gente pra trabalhar assim, de primeiro você fazia uma canoa era a coisa mais fácil, puxava podia fazer uma canoa numa serra dessa ai. chegava aquele dia você falava com gente todo mundo vinha só por causa de cachaça e fandango de noite. Hoje a turma já não gosta mais disso né, tem algum que gosta mais não é que nem antes, antes era bom, hoje em dia ninguém que mais trabalha meio dia de serviço, pra outro sem receber, já quer receber o dinheiro..
Zé Muniz: Chamavam as pessoas pessoas pra vara a noite e o senhor dava o fandango?
Nivaldo: Uhum.
Zé Muniz: Na casa do senhor assim?
Nivaldo: É
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canoas no porto de Guaraqueçaba
pintura de J. Maia / acervo: Hotel Eduardo I
foto: Leandro Diéguiz
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Canoas na Colônia de Superagui
pintura: William Michaud / direitos reservados
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Construção de canoa na Colônia de Superagui
pintura: William Michaud / direitos reservados
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Pescadores e suas canoas em Paranaguá
desenho: Deocir Gomes / foto: Zé Muniz
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"O Canoeiro"
obra de Onofre da Silva, premiada no II Salão Nacional de Cerâmica (2008) na categoria "Popular"
foto: Zé Muniz
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REFERENCIA:
A entrevista foi realizada por Zé Muniz, Rodrigo de Souza Graça e Paulo - bolsistas do programa Universidade Sem Fronteira, em parceria com o professor Marcel, do Colégio Estadual Marcílio Dias, pelo projeto "Traços culturais das comunidades tradicionais do litoral do Paraná e resistência frente ao avanço da modernização expropriatória impulsionada pelo capital" no ano de 2010.
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CD "Vida Caiçara" do Músico Carrigo.
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ALVAR, Júlio. ALVAR, Janine. Guaraqueçaba mar e mato. Editora da UFPR. Curitiba: 1979.