"Eu considero Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo"
- Padre Mário Di Maria - (12/07/1974 - entrevista ao Jornal Diário do Paraná)

23 de março de 2016

Lenda Guaraqueçabana IV - Dia 25 de março

            Que estamos na Quaresma todo bom caiçara sabe e aquele bom fandangueiro já, logo depois do carnaval, desencordoou sua viola e a pendurou, dentro de um saco, com a boca virada pra parede, guardando este tempo do cristianismo...
            Aqueles que ousavam tocar viola, ou mesmo fazer Fandango durante este tempo, sempre recebiam alguma punição por desafiar sua tradição, como a família do velho Chico Santos <http://informativo-nossopixirum.blogspot.com.br/2011/01/lenda-guaraquecabana-parte-ii-tangara-o.html>.
            Neste ano de 2016, a Sexta-Feira-Grande (Sexta-Feira-Santa), durante a Quaresma, será também o dia 25 de março, outro dia que pela tradição caiçara deve-se resguardar de certas atividades, entre elas fazer Fandango! A encarnação e a crucificação, no mesmo dia!
            Este dia, 25 de março (9 meses antes de 25 de dezembro, nascimento de Jesus), como acreditam os cristão, portanto também enraizada na cultura caiçara, foi o dia da Anunciação do Anjo Gabriel a Nossa Senhora, e Maria, a partir de então recebeu Jesus em seu ventre, por isso uma data muito respeitada pelos antigo, nas palavras de Faustino Mendonça (In Memoriam): “um dia de descanso, onde não se pode trabalhar”.


             Certo caçador, mesmo contrariando os pedidos da mãe, que lhe clamava para que não fosse caçar naquele dia santo, aprontou sua espingarda, carregou alguns cartuchos com pólvora, chamou seu cachorro e foram pro mato... Ainda deixou recado pela vizinhança que voltando com a caça, noutro dia ia ter Fandango na vila.

            Em determinada altura, já mata adentro, o cachorro acuou uma caça, deixando seu dono alegre quando este viu se tratar de um veado, e dos grandes, pensando logo que o Fandango seria dos bons...
            Imediatamente mirou e disparou contra o animal, acertando ‘de cheio’, mas notou que o veado não caiu; Disparou novamente, acertando-o, mas o animal a cada novo disparo certeiro, cambaleava, parava olhando para o caçador, e logo corria mata adentro, como se nada o atingisse e a perseguição adentrando mata continuava.
         
http://eloir-mario.blogspot.com.br/2012/10/a-cidade-de-tiete-teve-o-privilegio.html

            Como já estava escurecendo, o caçador resolver disparar seu último tiro, era o 25º cartucho e novamente certeiro, mas nada do bicho cair...

            Já escuro e sem munição, retornou o caçador pra casa, sem caça, pensando no que ia servir no Fandango que ia fazer...

Chegou em casa já noite avançada, cansado, suado e sem a caça, ouvindo ainda sua mãe ‘ralhar’, pois aquele não era dia de caçar.
Noutro dia, a vizinhança chegando pro Fandango, não se incomodaram muito por não ter caça servida, pois apenas o café com arroz e farinha já foi o suficiente para aquela noite de Fandango, animada ao som das violas, rabeca, adufe e o batido dos tamancos.
    De repente na porta, apareceu um desconhecido, alto, bem aparentado, de chapéu na mão, sendo logo convidado a entrar e se divertir... Este sentindo-se a vontade, dançou dondom com todas as damas presentes e em seguida pediu a viola pra tocar também.
            Alguns riram, pois duvidavam que aquele desconhecido soubesse tocar Fandango, mas como dançava muito bem foi dado a ele uma viola e sentou-se ao lado do dono-da-casa, o caçador, para tocarem juntos...
Viola afinada, o dono-da-casa, caçador, também mestre violeiro, perguntou se o desconhecido sabia alguma moda, pra cantarem juntos e surpreendeu-se quando o desconhecido puxou a seguinte moda:

“25 de março / No mato muito corri
Levei 25 tiros / Não morri estou aqui.
Em 25 de março / O cachorro me fez correr
Eu aqui neste fandango / Não pretendo amanhecer”.

             Instantaneamente, após cantar o verso, ouviu-se um estouro no salão e o violeiro desconhecido desapareceu, restando no ar um tremendo mal cheiro que fez todos correrem pra fora... assustados, sem saberem o que aconteceu...
    O dono-da-casa então contou a todos a história do veado que perseguira no dia 25 de março e dos 25 tiros que acertou e o bicho não morreu, não restando dúvida, em se tratar, aquele visitante, do ‘coisa ruim’...
Ninguém quis saber mais de dançar, acabou o Fandango e o povo foi indo pra casa, mas o caçador ainda ficou a noite toda acordada, sem conseguir dormir, pois a cada cochilada que dava ouvia o cachorro latir, como se estivesse acuando alguma caça e assim foi durante o ano todo, quando dormia, a certa altura da noite acordava assustado, suando, ouvindo seu cachorro latir, lembrava então de toda aquela história que passara...
Assim foi até o dia 25 de março do outro ano, quando resolveu ficar em casa, em respeito a data.
Nasceu assim na tradição caiçara o costume de não caçar e não fazer Fandango no dia 25 de março...
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saber mais sobre algumas tradições caiçaras da Quaresma

O Amargoso e as tradições da Quaresma
<http://informativo-nossopixirum.blogspot.com.br/2009/04/amargoso-e-as-tradicoes-da-quaresma.html>.

2 comentários:

  1. Bela estória da tradição! Parabéns Zé

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  2. Grande Zé Muniz...as publicações no Pixirum sempre são sensacionais.....Parabéns

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