"Eu considero Guaraqueçaba um pequeno mundo dentro do mundo"
- Padre Mário Di Maria - (12/07/1974 - entrevista ao Jornal Diário do Paraná)

5 de fevereiro de 2013

Patrimônio em Perigo – I Ararapira e seu abandono...




 
década de 80
foto: Miguel Von Behr.
 2006
 
         Aproxima-se o mês de março... alguns ex-moradores vão chegando, pintando suas casinhas, carpindo as trilhas, arrumando as mínimas condições necessárias para, no dia 19, a vila de São José da Marinha ou simplesmente Ararapira, receber centenas de ex-moradores e celebrar seu Padroeiro São José.

procissão com o andor do Padroeiro São José
foto: 2006
 
jovens jogando futebol, tudo "normal"
foto: 2006
 
        Tem sido assim desde que a legislação ambiental começou a impor fortemente suas regras neste ambiente, incorporando-o ao Parque Nacional de Superagui (década de 80) e de certa forma, forçando seus antigos moradores a deixarem suas terras, já motivados pelo declínio da pesca artesanal, as questões de domínio das terras pela Cia. Agropastoril (década de 70), com seus jagunços e búfalos a amedrontar os caiçaras moradores da região, a abertura e consequente assoreamento do Canal do Varadouro (a partir da década de 50), motivo principal do desmoronamento do barranco da Vila de Ararapira...
 
        Há a Vila era atendida pelos paulistas e após 1920, a reivindicação paranaense pela posse teve um desfecho positivo, o Presidente Epitácio Pessoa decretou esta pertencer ao Paraná, então os paulistas que atendiam com Correio, Cartório, Delegacia, Escola e o mais importante, atendimento da Cia. De Navegação Sul Paulista com itinerário marítimo passando pela vila a escoar e trazer produtos. Uma vez sendo paranaense, o “domínio” paulista ali desempenhado fora transferido pro outro lado do Canal do Varadouro, fortalecendo Ariri, em território paulista, cabendo a Ararapira e seus pouco moradores restantes o abandono do governo paranaense...

Dinancor (In Memoriam) mostrando até onde ia a Vila, lá perto do mangue. Desbarrancou tudo.
foto: 2006
 
        Suas terras foram doadas, em 1767, por Joaquim Morato do Canto e esposa Rosa Toledo Piza, para fins de fundar uma povoação (protegendo a Capitania da ameaça espanhola de ocupação das terras portuguesas), sob ordem de Afonso Botelho de Sampaio e Souza, o mesmo que ordenou a construção do Forte Nossa Senhora dos Prazeres, em Ilha do Mel e a Igreja de São Luiz de Guaratuba (note-se que D. José era Rei de Portugal; D. Luiz Antônio de Souza Mourão, Presidente da Capitania de São Paulo).

imagem antiga (direitos reservados)

 
Ararapira 2006
 
         A Vila, segundo historiadores como Carneiro (1986, pg 77), por exemplo, “tivera início no final do século XVI, fora escolhida por ser ponto de para obrigatória entre Paranaguá e Cananéia”, tendo seus primeiros moradores indígenas habitantes desta região a misturar-se com o português, desembarcado em Cananéia no ano de 1501, do qual VIEIRA dos SANTOS (2001, pg 13) descreve: “certamente bem poderiam haver mais de 100 pessoas mestiças entre filhos e netos que aqueles primeiros colonos ali propagaram”, e acrescenta, quando diz que a população, uma vez aumentando, se animaram a entrar em canoas e desvendar os sertões, chegando nas praias de Ararapira e Superagui (onde Hans Staden registra dois em 1549) depois Paranaguá.
 
        Hoje a Vila de Ararapira é muito conhecida como “Vila Fantasma”, vítima de um turismo inconsciente, propagado com inúmeros absurdos, inclusive a exposição de ossada humana, a atrair a atenção dos exploradores turísticos da região... Já fora até reportado “o cheiro de sangue que possui a trilha que leva ao cemitério”; O certo é que por ser antiquíssima, possui inúmeras histórias e lendas que a enredam num cenário um tanto assustador, somado ao fato de existirem as casas de ex-moradores, ruínas da escola, ruínas do cartório, ruínas da delegacia, a Igreja de São José, a trilha do Cemitério, rodeada de mata atlântica, como um cenário de filme de terror... alí se vê morador apenas no dia 2 de novembro – dia de finados, quando visitam seus entes-queridos, ou quando falece alguém naquela região, é em Ararapira o único cemitério...  Ou no dia de São José (19 de março) quando os ex-moradores retornam e realizam a festa em louvor ao seu padroeiro e revivem Ararapira.
seguindo por esta trilha...

... quase que fechada pela Mata Atlântica...

... chegará ao cemitério de Ararapira.
 
        Tudo está em risco... Toda esta mobilidade é ameaçada, por estar tal território dentro do Parque Nacional de Superagui e na legislação de tal unidade seria impossível haver moradores, até porque quando da criação da Unidade de Conservação, estaria abandonada, portanto qual o direito que os ex-moradores teriam de retornar? Reformar suas antigas casas? E aquelas que já caíram?

casa em destaque (década de 80) - verifique área ao redor e barranco
casa em destaque (2006)


ruínas da casa mostrada nas duas fotos acima (2012)



barranco com destruços, ruínas da casa mostrada acima
 

 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
        O que de mais certo é – a Igreja de São José – ainda de pé e que mantém viva a Vila de Ararapira, recebendo todos os anos seus filhos e devotos, está em ruínas, prestes a desabar...
a situação do telhado, com goteiras e prestes a desabar...

a porta da Igreja de São José

a situação das janelas da Igreja de São José

duas madeiras sustentam a estrutura do telhado


é precária as condições da centenária Igreja


rachadura na parede externa da Igreja de São José
 
 Serve esta postagem para denunciar tal ABANDONO E DESCASO...
... Será enviada ao e-mail do escritório do IPHAN/PR, a Secretaria de Estado da Cultura setor Patrimônio, Secretaria Municipal de Cultura de Guaraqueçaba e tento fazer uma denúncia na Revista de História seção Patrimônio em Perigo e peço gentilmente que todos denunciem, divulguem este descaso!....
 
        A história da Vila foi tema de minha monografia de conclusão de Curso de História na FAFIPAR, em 2008 (https://drive.google.com/file/d/0B3Ue7WCPmb5GOF9YTVlMbnk5MEE/view?usp=sharing) e de lá pra cá, uma reportagem na Revista de História da Biblioteca Nacional, quando um Deputado Federal cobrou ações do Ministério do Meio Ambiente, algumas reportagens em jornais paranaenses e mais recentemente (a produzir) um documentário sobre a Vila de Ararapira.
Seguem alguns links sobre a história da Vila de Ararapira
5. http://robertofortes.zip.net/arch2008-08-17_2008-08-23.html
6. http://robswood.blogspot.com.br/2011/01/ararapira-cidade-fantasma.html?showComment=1360087875458
7. http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/os-cacadores-de-lugares-esquecidos

8 comentários:

  1. Parabéns por sua luta em prol de nosso patrimônio histórico!
    Localidades como Arapira bem poderiam ser transformadas em pontos turísticos e trazer divisas para o nosso Paraná!

    Zélia Sell
    Curitiba - Pr.

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  2. O turismo ecológico é uma das perspectiva para angariar fundos para manter o patrimônio histórico desta região, porém aconselho a mobilização dos moradores, pois se depender das autoridades não haverá nenhuma solução. O maior drama de nosso litoral é a falta de representantes políticos, pois os "paraquedistas" só lembram de nossa região em época de campanha.

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    1. Olá, parabéns pela reportagem, porém discordo totalmente da opinião do Pastor Ivo, quando o mesmo aconselha a mobilização dos moradores para a solução dos problemas da Ararapira e também da falta de representatividade política na região, e minha indignação fica maior quando vejo "eleitores corruptos" votando em "candidatos corruptos" em troca de cestas básicas, redes, barcos, telhas, etc, sem ao menos ouvirem quais são as propostas dos "políticos paraquedistas" pois estes pelo menos tem propostas para apresentarem e os políticos que só aparecem em datas festivas nas comunidades para pagar cervejadas, churrascadas e só retornam nas vésperas da eleição:
      Com a palavra, os moradores de Barra de Ararapira e adjascências que votaram em peso em um único candidato, agora é a hora de cobrar a solução desses problemas ou ficar inerte.

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  3. parabéns pela reportagem, e como será que se encontra hoje em dia?

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  4. Olá prezada leitora... infelizmente do mesmo modo, ou com alguns centrímetros-metros a menos de barranco... Nos próximos meses será lançado um documentário "Canal do Varadouro: História e Cultura", contando a história da abertura do Canal do Varadouro com detalhes da Vila do Ararapira... é mais uma esperança, a somar nos trabalhos e reportagens alertando para o perigo em que se encontra a velha vila, mas sinceramente não saberia o que se poderia fazer neste patrimônio ou se tem relevância esta luta - certamente para os órgãos competentes não -, pois se tem, porque o poder público municipal e estadual ainda não se atentaram disso, pois há anos estamos nos reportando e entrando em contato com órgãos competentes e a vila continua desbarrancando a sua história viva apenas na memória dos amantes daquela terra... é lastimável mas é o destino de dezenas de outros patrimônios pelo Brasil... Com orgulho se fala "da mais antiga do Paraná", etc..., mas nada se faz para preservar esta história, lamentavelmente.

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  5. Legal a matéria, nem sabia que existia um lugar assim no Paraná, moro na região metropolitana de Curitiba. Estava vendo uma reportagem sobre a cidade através de um vídeo no Youtube ( https://www.youtube.com/watch?v=5iOx5tipWac ), e resolvi dar uma pesquisada, a minha ideia era que alguém que conhecesse o lugar que convidasse o pessoal do Caça fantasmas Brasil ( https://www.facebook.com/cacafantasmasbrasil/ , https://www.youtube.com/user/RosaMariaJaques ) pra fazer uma matéria por lá, acho que seria interessante. Bom, é apenas uma ideia, fica a dica, valeu, abraço!

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    1. Olá camarada. Está para ser lançado, provavelmente no primeiro semestre de 2017, o seriado CIDADES FANTASMAS retratando 8 lugares como Ararapira pelo Brasil afora... Mais informações (Galo de Briga Filmes).... Igualmente está sendo lançado (dez, 2016) o livro Povoações abandonadas no Brasil - autoria de Nestor Razente, também retratando um pouco da história de Ararapira... Ressalto o pedido de ex-moradores em não classifica-la como 'fantasma', pois ainda mantém um elo muito forte com frequentes visitas a comunidade, etc... Aos que se interessarem, minha monografia de graduação em história retrata um pouco desta história... Obrigado pela visita e sugestão.

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  6. Ariane Borges dos Santosterça-feira, janeiro 10, 2017

    Nossa que emocionante! Sinto daqui a sensação de pertencimento e a impotência diante do descaso com o patrimônio histórico e sentimental do lugar. Torço pra que seja feito alguma coisa pra manter do jeito que está. E aguardo esse documentário.

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